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terça-feira, 18 de agosto de 2015

O raio X das escolas do país

O raio X das escolas do país

17 de agosto de 2015
Série especial traz três capítulos sobre a infraestrutura das unidades de Ensino Básico no Brasil: um terço das unidades não tem esgoto encanado e um quarto não tem coleta de lixo

Fonte: G1



Mais da metade das escolas sem esgoto encanado. Quase um terço sem rede de água. Um quarto sem coleta de lixo. É esse o retrato traçado pelo Censo Escolar 2014. Os números revelam que boa parte das instituições de ensino ainda não conta com o básico. Mas mostram também que alguns indicadores, como a oferta de internet, têm melhorado ano a ano.
De 2010 a 2014, o percentual de escolas com rede de esgoto passou de 42% para 47% apenas. Já o percentual de escolas com internet foi de 47% para 61% no mesmo período.
Os dados, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), foram tabulados a pedido do G1 pela Fundação Lemann e pela Meritt, responsáveis pelo portal QEdu.
Especialistas ouvidos pela reportagem apontam a falta de recursos, a ausência de planejamento e uma gestão deficiente como entraves para uma melhora efetiva dos indicadores tanto das estruturas prediais como dos equipamentos e mobiliários das escolas.
O pesquisador Thiago Alves, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), diz que não é razoável pensar em uma escola de qualidade sem uma infraestrutura adequada. “A gente olha os países ditos desenvolvidos em educação e não há nenhuma escola com boas notas e uma estrutura ruim. O problema é que a qualidade da educação no Brasil é medida apenas por testes”, afirma.
Segundo ele, a falta de indicadores que vinculem o rendimento acadêmico à qualidade da infraestrutura escolar é usada por gestores e secretários para o “desinvestimento” nas reformas físicas. “Mas quando alguém vai escolher uma escola para o filho, vai sempre optar pela que tem o espaço físico mais adequado.”
Alves diz que um dos principais problemas está na má gestão dos recursos. “A parte de infraestrutura custa 10% do orçamento de educação, mas mesmo assim há dificuldade financeira para custear e fazer obras. Eu já vi casos de uma escola que foi construída e o prédio foi entregue com o mictório pregado na parede, mas sem cano. O aparelho de datashow estava lá também, mas sem fiação. Isso está muito presente nas secretarias, que têm dificuldade de planejar, contratar e acompanhar as obras.”
Existem hoje no país 189.818 escolas de ensino básico – 150.033 públicas e 39.785 particulares.
Veja a comparação da infraestrutura das escolas de 2010 a 2014, por cidade, em quatro diferentes itens:

Acesse o gráfico no site original aqui


Sem o básico
No caso dos dados de saneamento básico, Eduardo Deschamps, presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), diz que a falta de estrutura nas escolas reflete a situação do país, que tem números “assustadores”. “Blumenau (SC), por exemplo, que tem um IDH elevado, só recentemente começou a implementar uma rede de esgoto sanitário de maneira adequada. Se um município desse padrão tinha esse tipo de tratamento, basta imaginar no restante do Brasil. Isso se estende às escolas”, afirma ele, que é secretário da Educação de Santa Catarina.
A vice-presidente União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Manuelina Martins, diz que saneamento básico é um investimento alto. “E como o município não tem recurso suficiente, acaba priorizando outras questões, como ampliar uma escola, por exemplo. Infelizmente, 70% dos municípios brasileiros sobrevivem do FPM (Fundo de Participação dos Municípios). Além disso, ficam dependentes de programas do governo federal”, diz.
Deschamps diz que foi proposta ao ministro Renato Janine Ribeiro uma discussão acerca do financiamento da educação e de como deve ser feita a redistribuição de recursos. “Os municípios têm o desafio da educação infantil e de gerir escolas que têm um número de alunos muito pequeno e que são isoladas, ou seja, precisam fazer um investimento significativo para dar as condições adequadas. Já os estados possuem o desafio do ensino médio.”
Para a arquiteta Emilze de Carvalho, autora do projeto Padrão Nacional de Escolas de Tempo Integral, apesar da falta de verbas ser um fator preponderante, ele não pode ser uma desculpa. “Penso que é fundamental e necessário, sim, ter mais recursos para a educação, mas é preciso se apropriar de ferramentas de gestão, planejamento e transparência necessária às instituições. Uma boa gestão consegue o envolvimento de profissionais de arquitetura, engenharia, empresários, representantes da comunidade local e administradores públicos, com desempenho justo de suas funções, e promove a realização de uma infraestrutura efetivamente adequada.”
O Ministério da Educação diz que nos últimos 20 anos a ampliação dos serviços de saneamento básico no Brasil e o acesso da população à internet se beneficiaram de “profundos avanços”. “Ainda existem muitos desafios, principalmente relacionados com as desigualdades regionais quanto à disponibilidade de infraestrutura adequada. Assim, temos uma potencial demanda a ser cumprida, tanto no acesso de escolas à internet, como na instalação de rede de esgotos, sobretudo nos endereços de escolas públicas localizadas em territórios de vulnerabilidade social.”
Avanços, mas graduais
Os dados do Inep mostram que o progresso tem sido lento na maioria dos itens estruturais. O percentual de escolas com bibliotecas, por exemplo, só passou de 33% para 36% de 2010 para 2014. Já em outros, houve um avanço mais significativo: 45% das escolas já contam com laboratórios de informática, ante 35% em 2010.
Na visão do professor Joaquim Soares Neto, da Universidade de Brasília (UnB), leis como o Plano Nacional de Educação (PNE) têm ajudado a fazer com que os números educacionais do Brasil avancem aos poucos. “Há uma política de melhoria das estruturas das escolas, claramente dá para ver isso. Mas como a gente está falando de um sistema de quase 200 mil escolas, existem locais em que isso está melhorando de forma mais sistemática e em outros, não”, diz Neto, que foi presidente do Inep entre 2009 e 2011.
Ernesto Martins Faria, coordenador de projetos da Fundação Lemann, tem o mesmo entendimento. “Os percentuais de escolas não ilustram de forma completa quais são as principais necessidades. Temos escolas de diferentes tamanhos, sendo que as escolas que enfrentam as maiores dificuldades, em grande parte, atendem poucos alunos. Isso faz com que quando ponderemos esses dados pelo número de matrículas o cenário se mostre mais positivo.”
Há determinados espaços nas escolas, porém, que não têm recebido atenção dos gestores ao longo dos anos. A quadra de esportes é um exemplo. Só 32% das unidades contam com o espaço – número não muito diferente do de 2010 (28%).
“Considero as quadras um espaço fundamental. Ela passa por uma questão de concepção do papel do desporto escolar na educação. O que se aprende em uma quadra esportiva tem uma importância para a sociedade igual ao que se aprende em uma aula de matemática, português ou ciências. Nos Estados Unidos e no Japão, o desporto escolar é valorizado. Nos EUA, a criança começa desde a escola até se profissionalizar, participando de competições. Só 1% vira, de fato, atleta, mas o objetivo é propiciar outros aprendizados com a prática”, afirma Thiago Alves, da UFPR.
Ele ressalta a falta de planejamento como um dos entraves para a melhora tanto na oferta como na qualidade dos equipamentos escolares. “Não há correta previsão de curto, médio e longo prazo na questão de oferta de ensino nas redes. Quantas matrículas serão ofertadas daqui a cinco anos, dez anos? Sem essa projeção, não é possível prever quantas escolas são necessárias ou quantas precisam ser adequadas.”
Além das quadras, só 11% das escolas possuem um laboratório de ciências e 21%, uma sala de leitura.
O Censo Escolar é realizado todos os anos e coleta, além de dados sobre a infraestrutura dos estabelecimentos, números de matrículas e estatísticas de abandono e de rendimento escolar. Neste ano, o Inep prorrogou o prazo para envio dos dados pelos gestores. As informações para o Censo 2015 deverão ser enviadas até o dia 28 deste mês.
Para Neto, um dos obstáculos para uma análise ainda mais apurada dos dados é o fato de não haver uma medida de acompanhamento da manutenção dos equipamentos. “Os dados mostram os bens que a escola possui. Sobre o estado desses equipamentos, no entanto, não há dados disponíveis.” É possível, portanto, que escolas possuam computadores, mas eles não estejam funcionando, por exemplo.
O G1 visitou uma cidade que pode ser considerada exceção no país. Água Comprida (MG) é uma das três do Brasil em que todas as escolas contam com oito itens de infraestrutura selecionados (rede de esgoto, rede de água, coleta de lixo periódica, quadra de esportes, biblioteca, sala de professores, acessibilidade e internet).


Leia a reportagem no site original aqui


Referências no país, escolas de Água Comprida dividem o mesmo prédio
Em Água Comprida, no interior de Minas Gerais, as condições físicas de duas escolas – uma municipal e uma estadual – as qualificam como referência no país, segundo levantamento feito pela Fundação Lemann e pela Meritt a pedido do G1. O curioso é que elas dividem o mesmo prédio e, portanto, juntas, compartilham a sala de professores com banheiro unissex, cantina, cozinha com dispensa, biblioteca informatizada aberta à população, quadra esportiva e horta.

E quando se fala de boa educação, no índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2013, as escolas da cidade apresentaram índice 5,8, enquanto a média nacional foi de 5,2 para séries iniciais e 4,2 para finais.
Com uma população de 2.067 habitantes, as escolas de um prédio só são consideradas pelos alunos, professores e diretores um espaço assistencial engajado em oferecer possibilidades.

Só há três cidades no Brasil em que todas as escolas contam com oito itens de infraestrutura selecionados pela reportagem (rede de esgoto, rede de água, coleta de lixo periódica, quadra de esportes, biblioteca, sala de professores, acessibilidade e internet). Água Comprida é uma delas. As outras duas também são de MG: Central de Minas e Goiabeira.
Ensino e estrutura
O prédio que abriga os alunos funciona desde 1955. De um lado recebe 210 estudantes na Escola Municipal General Osório, do outro, 240 na Escola Estadual José Acácio da Silva.
Para atender alunos da educação infantil ao 5º ano da rede municipal são oito salas de aula, uma biblioteca, parque de diversões, banheiros, secretaria e diretoria. Do 5º ano ao ensino médio a educação é pela rede estadual e dispõe de cinco salas de aula, sendo uma com rampa, biblioteca, sala de recursos audiovisuais, secretaria e diretoria.

O diretor da escola estadual, Luiz Fernando Oliveira, está no cargo há sete meses e reconhece que a instituição passa por transformações cujos benefícios já são visíveis. “A nossa estrutura física e pedagógica está muito boa em relação ao Estado. Também fazemos um trabalho com a Superintendência Regional de Ensino e com a prefeitura para aperfeiçoar o nível de qualidade da educação dos nossos alunos. Ainda temos o aperfeiçoamento do nosso espaço para adequar à acessibilidade, levar mais conforto aos alunos, professores e servidores de um modo geral”, conta.
O aluno do 8º ano Carlos Raphael Custódio aprova as melhorias recentes na escola. “É uma boa estrutura com os melhores livros de todas as matérias e assuntos. O ambiente é amigável. O laboratório de informática e a sala multimídia são locais importantes para pesquisas e para os professores fazerem trabalhos e tarefas em um local mais descontraído”, afirma.

Keila Cristina Custódio é mãe do estudante e enfatiza que o ambiente se tornou atrativo e um estímulo para Carlos estudar. “A direção está muito boa e com novos projetos. Isso o estimulou a estudar, pois antes não gostava muito. Vejo que a escola tem esse papel de melhorar cada vez mais a vida do estudante”, ressalta.

Representando a escola municipal, a secretária de Educação Aparecida Neile atenta para as reformas constantes na estrutura. O objetivo é aliar o bem-estar à educação. “Temos ótimos profissionais. Todos têm extrema responsabilidade. Temos projetos inclusive para a parte de piso. A intenção é trocar todos. Terminando a reforma que estamos fazendo do lado de fora, ficaremos com um aconchego bem gostoso para as crianças e funcionários”, afirma.
Cozinheira autônoma, Kellen Patrícia é avó de Ana Letícia, que cursa o pré 1. Por conhecer de perto o sistema de ensino, ela optou por matricular a neta na escola.

“Eu estudei na escola e posso dizer que o estudo é muito evoluído, com bons ensinamentos para nossos filhos e netos. Além disso, sempre tem comemorações para a família e isso faz ser um lugar participativo e aberto a todos."
Abertas à comunidade
Quem precisa de usar a biblioteca em Água Comprida não precisa necessariamente estudar nas duas escolas. Uma das três salas é aberta para uso comunitário e ainda conta com equipamentos de informática disponíveis – benefício que se tornou frequente na vida do estudante Jhonathan Luiz.

Ele estudou desde a 2ª série nas escolas, mas atualmente usufrui do espaço para a graduação em Comunicação Social. “A escola foi um grande alicerce na minha vida estudantil. Me ajudou a cursar uma faculdade. Além de o ensino ser muito bom e os professores serem maravilhosos, temos a biblioteca junto com a escola e que é aberta não só para os alunos”, destaca.
Acessibilidade
A inclusão social se tornou tema constante na pauta da instituição estadual, que atualmente tem dois alunos cadeirantes. Isabella Vitória faz o 8º ano e dispõe de mesa especial. Graças à implantação de uma rampa e mudança na largura da porta, ela se sente incluída no meio em que vive.

Isabella e outro aluno cadeirante, além de estudantes que requerem atenção extra, contam com apoio integral da professora Maria Abadia Moreira Botelho. Na instituição estadual há 18 anos, ela afirma que a inclusão deve avançar ainda mais no próximo ano.
“Acho que a estrutura está bem favorável a todos os alunos. Estamos pensando seriamente no ano que vem em promover uma sala para trabalharmos mais com eles, que precisam de aprendizagem mais adequada”, adianta.
Alimentação e contação de histórias
Na cantina, as preocupações alimentares são sanadas com o auxílio de uma nutricionista. A serviçal Kenia Beatriz é uma das profissionais que cuidam das refeições.
Segundo ela, o cardápio é variado e se preocupa principalmente com os alunos da área rural. “Os meninos que às vezes vêm de fazenda têm um lanche antes da merenda, porque muitas vezes não dá tempo de almoçarem. Nossa merenda pode-se dizer que é completa. Às vezes é melhor até que a da casa da gente, porque é muito rica em carnes, frutas e também tem sobremesa algumas vezes na semana. Além das variedades no cardápio que a nutricionista ajuda a preparar”, diz.

Um projeto de êxito no setor municipal é o “Contação de Histórias”. A educadora Liliane Oliveira é quem se encarrega de estimular a leitura e a formação de valores. “A gente trabalha com a contação de histórias. Os alunos menores têm acesso aos livros e ao material lúdico, onde realizamos algumas brincadeiras. No caso dos alunos maiores, do 1º ao 5º ano, trabalhamos essa ludicidade e um pouco de valores. Uma vez por semana, eles têm o direito de pegar um livro na escola e fazer essa leitura”, explica.
Esporte precisa de melhorias
É na quadra de esportes que a necessidade de melhorias se faz mais urgente. A professora Faída Leal tenta proporcionar aos estudantes atividades físicas e esportivas, mas a falta de materiais e o piso de cimento do ginásio dificultam avanços no trabalho.

“A gente precisaria de mais materiais como bolas, redes e tudo. O piso poderia ser melhor porque não é muito adequado, mas vamos levando de acordo com a nossa possibilidade. Mas mesmo assim damos praticamente aula de tudo mesmo, como futebol, vôlei, queimada”, afirma.

Pedagogia aplicada
O acompanhamento pedagógico é trabalhado por meio da participação familiar e de programas já em prática ou agendados. Na parte estadual, a supervisora integral Cleusa Ivone destaca que o aproveitamento dos alunos foi melhorado com o uso de modelos de provas e atenção constante dos discentes.

“Quando vemos que um deles precisa de reforço, todos os professores trabalham em cima. Temos feito projetos, mesmo pequenos, que deram resultados. Ainda temos certa resistência por parte dos alunos em relação a, por exemplo, trazer os pais para a escola. Entretanto, sem a presença dos pais na escola fica difícil qualquer projeto dar certo e ser satisfatório”, afirma Cleusa.
Na escola municipal, a alfabetização se tornou o principal compromisso para melhorar a aprendizagem. Segundo a coordenadora pedagógica Ângela Marta, o pacto de alfabetização pela idade certa, proposto pelo Mistério da Educação, foi aderido em 2014 e fez diferença. “Eu vejo que essa formação contribuiu muito para a prática pedagógica dos alunos em sala de aula. Temos as aulas de reforço também para aqueles de baixa aprendizagem e têm dado resultado significativo, embora não atinjam totalmente a meta que a gente prevê“, destaca.

Para este ano, os alunos continuarão também com suporte odontológico semanalmente para limpeza simples e direcionamento para demais tratamentos. A atenção psicológica e familiar é feita em parceria com o Conselho Tutelar e Centro de Referência de Assistência Social (CRAS).

O calendário tem ainda o Projeto Sanitarista Mirim para o 4º ano, em parceria com o Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), fora projetos de educação ambiental e sustentabilidade e antibullying, em parceria com o Serviço Social do Comércio (Sesc), e projetos de xadrez.

Leia a reportagem no site original aqui

Professores dão aula para alunos de várias séries na mesma sala no TO
Na Escola Municipal Arara, zona rural de Monte Santo do Tocantins, centro do estado, os professores precisam conciliar o tempo e o espaço. A unidade tem apenas duas salas e os educadores têm quatro horas por dia para dar aula a classes multisseriadas, formadas por alunos com idades e séries diferentes. O G1 visitou duas escolas da zona rural no município e encontrou problemas estruturais, irregularidades no transporte e uma antena de internet cujo sinal não chega à região. Na outra unidade, impressiona o fato de 35 alunos terem que dividir um mesmo banheiro pequeno e com apenas um vaso sanitário.
De acordo com levantamento feito a pedido do G1 pela Fundação Lemann e pela Meritt, responsáveis pelo portal QEdu, há 140 cidades no país em que todas as escolas da área rural não contam com oito itens de infraestrutura (rede de esgoto, rede de água, coleta de lixo periódica, quadra de esportes, biblioteca, sala de professores, acessibilidade e internet). Monte Santo do Tocantins é uma delas.
Para chegar na região conhecida como Arara, é preciso percorrer 35 km de estrada. Um dos professores da escola, Claudio Soares de Sousa, concilia o ensino com a atividade leiteira. Ele tem apenas o ensino médio e dá aula desde 1989. Todos os dias, Sousa acorda às 3h para tirar o leite das vacas. Três horas depois, sai de casa e chega à escola com um sorriso largo no rosto.
O educador dá aula para dez alunos, do 5º ao 9º ano, simultaneamente. Na sala heterogênea, o menino mais novo tem 11 anos e o mais velho, 17. O professor chega, separa no quadro o conteúdo específico para cada série e vai explicando separadamente. "A gente vai em um por um, explicando as matérias. Os meninos têm se desenvolvido bem, é difícil uma reprovação", ressalta.
Na outra sala, a professora Glaucilene Ferreira de Jesus Borges, que cursa o 4º ano de pedagogia, também leciona para cinco alunas do jardim ao 5º ano. A educadora, inclusive, já foi aluna na mesma escola e agora compartilha a experiência com as crianças da região. A classe multisseriada na zona rural é justificada por causa da estrutura precária e do baixo número de alunos. "Não dá para formar uma turma só e muitos pais acham melhor ficar aqui do que levar para a cidade."
A escola não tem biblioteca, mas tem prateleiras com alguns livros atualizados; o único computador que tem em uma sala não funciona, segundo o professor Claudio. Além disso, os alunos não têm acesso à internet – uma antena foi instalada na unidade, mas o sinal não funciona. A unidade tem um aparelho televisor, usado nas segundas-feiras, quando os alunos se juntam para cantar o hino nacional e nos dias nos quais são transmitidos os filmes.
Para o professor Claudio, os recursos tecnológicos fazem falta, mas não são empecilhos para uma boa educação. "A internet faz falta. Veio e não funciona, mas nós buscamos outros meios, como livros e jornais." A professora Glaucilene também defende a educação no campo. Ela conta que é possível dar uma aula com conteúdos atualizados. "Eu tenho computador em casa, internet, então eu busco e levo para eles."
A água que chega para os alunos sai de uma cisterna localizada em uma propriedade ao lado da escola. Ela é bombeada e armazenada em uma caixa de 500 litros. Na sala, um filtro com água gelada e quente abastece as crianças. No local, não tem rede de esgoto, mas tem fossa.
A escola fica à beira de uma estrada e, quando passa um carro com velocidade média, a poeira sobe como um redemoinho e entra pelas janelas quebradas da escola. Todas as janelas estão danificadas. Segundo a Prefeitura de Monte Santo, a escola foi reformada no ano passado, mas não adiantou: os vidros foram quebrados por vândalos.
A unidade tem dois banheiros, com um vaso e uma pia cada, que atendem bem os poucos alunos que estudam no local. Mas as portas estão danificadas e não possuem trancas.
As aulas começam às 7h e terminam às 11h15. Para levar os alunos em casa, a prefeitura disponibiliza um carro de passeio fornecido pela Receita Federal. O veículo faz várias viagens. No dia em que a equipe de reportagem do G1 esteve no local, no dia 5, a reportagem flagrou o motorista levando sete crianças de uma só vez.
A secretária municipal de Educação, Regina Glória, diz que há oito ônibus escolares para atender sete escolas, cinco da zona rural e duas da zona urbana. Sobre o transporte de alunos no carro de passeio, ela afirma que os alunos moram perto da escola. "Não são nem três quilômetros. O motorista precisa deixar cada um em casa e naquele caso aproveitou a viagem porque todos moram perto uns dos outros. Não corre risco de acidente porque as estradas são boas e os motoristas são responsáveis, vão devagar, não passam do limite de velocidade."
Um banheiro para 35 alunos
A Escola São João, também visitada pelo G1, fica a 45 km do centro da cidade, no assentamento Grota da Pedra. No antigo sobrado, funcionava a sede de uma fazenda que foi desapropriada. Segundo os moradores, a estrutura nunca passou por uma reforma. O detalhe é que há um único banheiro para 35 alunos. Do lado de fora, não tem lâmpadas e a torneira e a caixa d' água estavam com vazamento.
Quando a equipe de reportagem chegou ao local, o sobrado estava fechado. Mas pais de uma aluna, que preferiram não se identificar, disseram que a estrutura interna é precária. "Os cupins estão comendo o piso da parte superior, não tem ventilador nem computador e também não tem sala para todos os alunos, por isso o professor dá aula para várias séries. Professor consegue dar aula desse jeito?", questionou.
A filha do casal, de 8 anos, faz o 3º ano na unidade e conta que já estudou em outras escolas em Paraíso do Tocantins e Monte Santo. "Eu sinto falta do computador e do ventilador porque faz muito calor dentro da sala. Aqui as cadeiras são velhinhas e o banheiro eu quase não uso. Acho nojento", reclama.
Resposta
A secretária não nega que as escolas da zona rural tenham uma estrutura precária. "Hoje, a nossa grande dificuldade é a estrutura física. Na Escola Municipal Arara, a estrutura não está tão ruim, mas também não é adequada. O prefeito tem um projeto que vai executar quando nosso município melhorar financeiramente."
Regina confirma que a antena da internet foi instalada em maio deste ano por meio de um programa do governo federal, mas que ainda não está funcionando. "A internet veio através do Ministério da Educação, eles instalaram, mas ainda não está funcionamento. Nós não podemos mexer, estamos esperando eles virem para fazer a manutenção."
A secretária diz ainda que a escola localizada no assentamento Grota da Pedra, onde se concentra o maior número de alunos, é a mais precária. "No assentamento Grota de Pedra, a escola é onde a gente tem mais pendências quanto à estrutura física. Lá o prefeito fez um projeto, mas não foi executado por causa dos cortes do governo federal. Mas ele vai atrás. O prefeito pretende fazer as reformas com recursos próprios. Lá nós vamos unificar e unificando teremos uma escola mais forte. A prioridade são todas as escolas da zona rural", completa.

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Precariedade de escolas públicas de Novo Lino, AL, prejudica aprendizado
De fora parece um prédio sem nenhum tipo de problema estrutural, mas é só passar pela porta da frente para perceber que nem tudo é que parece. A Escola Municipal Mário Gomes fica na zona urbana de Novo Lino, município da Região Norte de Alagoas, e é um retrato da precária infraestrutura de parte das unidades do país.

Os banheiros estão com vazamentos que provocam mau cheiro, a escola não tem sala para professores, a cerâmica do piso está se desprendendo, isso sem falar na merenda, que, segundo os alunos, na maioria das vezes é formada por apenas bolacha com leite. A sala de informática tem computadores, mas eles nunca foram usados porque não há internet. Tudo fica trancado em uma sala.
No dia em que a equipe de reportagem do G1 esteve na escola, em 29 de julho, os alunos disseram que foi servido na merenda pão com soja e leite. Na cozinha da escola, foi possível ver pães armazenados de forma precária, com moscas pousando o tempo todo na comida.

Todos os documentos dos alunos e professores ficam amontoados em uma sala. Alguns arquivos já estão mofados. Os professores temem que, com uma forte chuva, a estrutura não suporte e que o material venha ser perdido.
A escola não tem biblioteca e alguns livros são armazenados no ponto de apoio onde é servida a merenda. Muitas salas têm goteira e as cadeiras que foram quebradas não foram repostas.
É péssimo. O prefeito não quer aumentar os salários dos professores e as salas estão cheias de buracos. Hoje teve pão porque vocês vieram. Normalmente é uma bolacha seca com leite, cuscuz com leite. Não é servida nenhuma fruta”, afirma a estudante Raiane Aline da Silva, do 7º ano.

Sobre a situação dos banheiros, uma das alunas diz que muitas vezes eles não são limpos. “Os banheiros são uma nojeira, tem dia que nem limpa. Passam mais de três, quatro dias sem limpar, imundos. Esses dias mesmo a mulher veio limpar e o que ela tirava do banheiro parecia uma lama preta”, afirma a estudante do 7º ano Jaqueline da Silva Sales.
A maior reivindicação dos professores do município é que seja pago o piso, o que não é cumprido. O salário base do professor de 1º ao 9º, que devia ser de R$ 1.917,18, para 40 horas semanais, não é pago. A categoria recebe R$ 1.060.
“Nosso salário está defasado desde 2011. É uma miséria e todos os municípios vizinhos cumprem o piso. Novo Lino é a única exceção. Não queremos reajuste, queremos o cumprimento do piso, tanto nosso quanto do pessoal de apoio que não chega ao salário de R$ 788 [salário mínimo]. O salário que eles recebem é um salário defasado de dois anos atrás, de R$ 678”, afirma o professor Gilmar Gomes.
O professor diz que a situação da sala de aula ainda é pior. A quadra de esportes da unidade foi tomada pelo mato e serve como ponto de tráfico de drogas e para que pessoas façam sexo, conta.

“Faltam cadeiras, um teto adequado para ter uma aula diferente, porque quando está sol, incomoda, e quando chove, os alunos ficam na chuva. Aqui do lado tem um terreno que está cheio de mato, com risco de mosquito da dengue. Fica complicado trabalhar em uma escola que os recursos vêm e não são aplicados onde se deve”, diz o professor Gilmar Gomes.

Zona rural
Se na zona urbana a situação já é ruim, na zona rural a situação fica ainda mais crítica. De acordo com levantamento feito a pedido do G1 pela Fundação Lemann e pela Meritt, responsáveis pelo portal QEdu, há 140 cidades no país em que todas as escolas da área rural não contam com oito itens de infraestrutura (rede de esgoto, rede de água, coleta de lixo periódica, quadra de esportes, biblioteca, sala de professores, acessibilidade e internet). Novo Lino é uma delas.
O acesso às escolas é muito complicado e quando chove a situação fica ainda pior. Alunos e professores não conseguem chegar à Escola Municipal Alfredo Soares em dias de temporal.
A estrada de barro fica esburacada e escorregadia, com riscos de atolar qualquer veículo. A equipe de reportagem do G1 foi em um dia de chuva e teve dificuldades para chegar ao local. O carro atolou próximo a escola e a reportagem teve que seguir a pé.

A escola tem 12 alunos e há mais de cinco anos não é pintada. Ela não possui rede de esgoto nem acessibilidade aos alunos. O professor precisa se virar para atender às séries infantis, 1º e 2º ano, em uma mesma sala, o chamado multisseriado. Segundo o professor que estava substituindo o professor da escola durante dois dias, Alfredo Araújo, os alunos são prejudicados com essa forma de ensino.

“Em alguns momentos, você tem que priorizar uma série. Mas é muito complicado mesmo que o professor selecione uma mesma matéria. Muitas vezes, o aluno sai sem entender de nada”, afirma Araújo.
A merendeira da escola diz que já teve que levar alimentos de casa para que os alunos pudessem ter uma merenda melhor. “Como é difícil, eu trago da minha [casa], trago verduras, boto bolacha. O que vem aqui é pela metade. O que chegou para a escola foram almôndegas enlatadas e macarrão. Tento sempre mudar, mas é difícil”, diz Rosiane Bezerra da Silva.

A escola também não tem coleta de lixo periódica. E não possui quadra de esportes. No intervalo, as crianças ficam dentro da única sala porque não há área de lazer.
Na Escola Coronel José Passos de Queiroz, a maior da zona rural, a lei do silêncio impera. Um funcionário, que prefere não ser identificado, disse que na escola há uma sala com cinco computadores, mas que eles não não utilizados porque não há um profissional para isso. Eles não são ligados à internet.
A escola está sem diretor há alguns meses e tem apenas dois professores concursados. Na despensa, foi possível ver alguns pacotes de arroz, charque, sucos e carne moída. Entretanto, a merendeira, que não quis ser identificada, disse que na semana em que a equipe esteve no local foi pedido aos pais dos alunos que levassem o lanche das crianças.
Em um mural que fica no corredor da escola há uma prestação de contas da escola. Nele, há os programas que a escola possui e o valor aplicado. O quadro mostra que a unidade recebe R$ 21,5 mil do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE), mas, de acordo com um funcionário, essa verba nunca chegou.

Depois que a equipe de reportagem esteve na cidade, os professores municipais deflagraram uma greve. Eles cobram o pagamento do piso salarial por parte do município, plano de cargos e carreira e pagamento do salário mínimo aos outros profissionais da saúde.

Na última segunda (17), o Diário da Justiça Eletrônico (DJE) trouxe uma decisão da desembargadora Elisabeth Carvalho Nascimento, do Tribunal de Justiça de Alagoas (TJ-AL), que considera abusiva a greve dos professores. A decisão prevê multa diária de R$ 2 mil ao Sindicato dos Trabalhadores da Educação (Sinteal) caso a categoria não retorne às atividades imediatamente.
Secretaria de Educação
O G1 entrou em contato com a secretária de Educação de Novo Lino, Núbia Lima, para saber quais medidas estão sendo tomadas para sanar os problemas encontrados.

Sobre a infiltrações nos banheiros, a secretária disse que isso é um problema pontual que já foi resolvido. Para o problema da merenda das escolas, Núbia disse que desconhece que esteja faltando comida. "Desconheço esses problemas com a merenda porque todas as escolas recebem [alimentos] regularmente. Problemas com infiltrações podem ocorrer em qualquer lugar, acredito que o dia em que vocês estiveram aqui foi um dia infeliz", afirmou.
Sobre as turmas multisseriadas, a secretária disse que busca recursos para melhorar a situação das escolas, bem como o acesso ao local.

"Os pais não querem deixar os alunos estudar em outras escolas distantes. Mas estamos conversando, inclusive vamos ampliar a Escola Coronel José Passos de Queiroz e a nossa previsão é trazer os alunos das escolas vizinhas para esse escola", afirmou Núbia.
A secretária Núbia Lima disse ainda que nenhum professor recebe abaixo do piso. "Não sei o motivo para eles falarem isso. Regularizamos os salários de 22 professores que recebiam abaixo. O que estamos em negociação é com o PCC [Plano de Cargos e Carreiras] com os professores e o Sinteal, por isso que eles estão em greve", afirmou.
O problema da falta da internet na zona rural, segundo a secretária, é porque a empresa contratada pela prefeitura não tem cobertura nessa região, mas ela disse acreditar que esse problema deva ser resolvido em breve. Já sobre a internet da Escola Mario Gomes, Núbia disse que o modem que alimenta a rede wi-fi quebrou.

"Estamos tendo dificuldades em encontrar esse modem. O diretor já fez o pedido. Assim que esse aparelho chegar, os alunos vão poder usar a internet", disse a secretária.

Já sobre a denúncia de que o PDDE não é enviado para a escola, Núbia afirmou que desconhece essa informação. "Acredito que alguém mal intencionado que passou essa informação. Essa pessoa não participa das ações da escola. Temos um Conselho de Classe e é o próprio conselho, formado por professores e pais, que prestam essas contas", concluiu.

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Alunos da zona rural de Ibirajuba, PE, enfrentam precariedade em escolas
Para os estudantes da zona rural de Ibirajuba, no Agreste de Pernambuco, o aprendizado em sala de aula está relacionado à vivência de dificuldades diárias. A ausência de rede de esgoto, rede de água, coleta de lixo periódica, quadra de esportes, biblioteca, sala de professores, acessibilidade e internet são algumas das precariedades encontradas. Outro problema é a falta de espaço para refrigerar alimentos. Diante da situação, alunos, professores e pais demostram ter se adaptado às condições de ensino.
A prefeitura alega que faltam recursos federais e não dá prazo para solucionar as dificuldades enfrentadas. Levantamento feito a pedido do G1 pela Fundação Lemann e pela Meritt, responsáveis pelo portal QEdu, aponta que há 140 municípios no país em que as escolas rurais não contam com nenhum dos itens listados. Em Ibirajuba, há 1.478 alunos na rede municipal de ensino. Destes, 284 estudam em dez escolas espalhadas pela zona rural.
Na visita à Escola Municipal São Francisco, localizada no sítio Maniçoba, os alunos se dividem entre aqueles que gostam de matemática e os que preferem língua portuguesa. Como outras crianças, eles têm sonhos: um deseja ser policial, outra almeja ser professora. Até lá, eles continuam indo de tranporte alternativo para a unidade de ensino, e, no intervalo, brincam no entorno ou nas dependências dela.
A escola atende no turno da manhã a 14 alunos do pré I ao 2º ano e a 13 crianças, do 3º ao 5º ano do ensino fundamental. A água utilizada para a merenda e para a limpeza é retirada de uma cisterna comunitária que fica a aproximadamente 200 metros do local. Os baldes são carregados todos os dias para manter os estudantes alimentados e o ambiente limpo.
A merendeira Maria do Socorro Siqueira Freitas, de 51 anos, é uma das responsáveis por buscar com baldes a água para cozinhar os alimentos e realizar a limpeza do prédio – composto por duas salas de aula, dois banheiros e uma cozinha, além da área externa. Uma cisterna será construída nos fundos da escola para que a unidade seja abastecida com menos prejuízos. "É porque fica passando por cima de arame, por baixo de arame. Se tivesse a cisterna logo era melhor, né?", diz.
Além de relatar a falta d'água como principal problema da escola, a merendeira também aponta que a cozinha não tem o tamanho adequado. "O espaço é pequeno. E também tem que forrar [o telhado] porque os pardais tomam conta. Ali em cima, eles ficam fazendo ninho. Aí toda vez tem que tirar aqueles ninhos, porque fica caindo pedacinho de galho. É uma dificuldade na zona rural."
A equipe de reportagem do G1 observou que não há espaço para armazenar alimentos perecíveis, como frutas e verduras. "Se vem verdura, aí nós levamos para casa e colocamos na geladeira. O que vai precisando, a gente vai trazendo aos pouquinhos. Às vezes, se vem frango, a gente faz logo no dia que chega. No resto do mês é carne de charque, pescada, ovos, carne de soja. Coisa que dê para guardar dentro do armário", detalha a merendeira. Ela diz que uma nutricionista vai à unidade uma vez por mês fazer o acompanhamento da alimentação.
O G1 também constatou que os estudantes comem a merenda na mesma carteira utilizada para o estudo. Além disso, os alunos não estavam vestidos com uniforme. A unidade não possui equipamentos para a realização de atividades extras, como, por exemplo, computadores e televisores. Uma professora da unidade, que preferiu não ser identificada, informou à reportagem que quando precisa exibir algum material em vídeo para os alunos leva um aparelho de TV de sua casa para a escola.

Preocupação
No Alto do São Francisco, outra localidade rural de Ibirajuba, a preocupação dos pais é o buraco feito para a construção de uma nova cisterna da unidade de ensino. “Tem risco de acontecer acidente, de alguma criança se machucar, empurrar a outra. Você fica com medo em casa”, afirma a dona de casa Clarice Galdino Rocha dos Santos, que tem um filho de 10 anos estudando na Escola Municipal Dom João da Mata de Amaral. Além disso, a dona de casa também relata que, quando chove, o telhado da unidade fica com goteiras. “Tem demais. Quando chove, lá na sala do meu filho é que tem mesmo. Fica estudando com a 'pingueira' em cima.”
A falta de uma rede de abastecimento de água e uma de tratamento de esgoto é comum em toda a localidade rural, incluindo a escola. “Não falta água, ela é fornecida por caminhão-pipa. No banheiro, sempre foi usado balde. Os banheiros são limpinhos porque os funcionários sempre estão observando”, conta a recepcionista Patrícia dos Santos, de 35 anos, que tem dois filhos – um de 6 e outro de 7 anos – estudando no lugar.

Adaptação
Apesar das dificuldades encontradas no levantamento, alunos e pais afimam que o ensino é adequado. "Aqui está bom, os professores são bons. Não está faltando nada, não, para o ensino", conta a merendeira Maria do Socorro, que também é mãe de um alunos da Escola Municipal São Francisco. Para uma das professoras, falta a participação dos pais na educação dos filhos. Segundo ela, os responsáveis não têm interesse em saber sobre a vida escolar das crianças. Mães de alunos da Escola Dom João da Mata de Amaral e da São Fransisco também destacam positivamente que o material escolar foi entregue em dia.
Outras escolas
O G1 também visitou a Escola Municipal José Apolinário de Amorim e a Manoel Calado. O acesso às unidades é precário. Os banheiros ficam em um lugar onde nenhuma cadeira de rodas passaria caso houvesse algum aluno com deficiência. Os quadros são de giz. Em ambas, há cisternas para o abastecimento de água.
Posicionamento da prefeitura
De acordo com o secretário municipal de Educação, José Inaldo de Amorim, não há um prazo para a instalação de equipamentos eletrônicos, como computadores, na Escola São Francisco. “A professora sempre vem para acompanhamento aqui na cidade. Então, se ela precisar de datashow, a secretaria disponibiliza. Se precisar de televisão e notebook, aqui a gente tem. Tem transporte para levar."
Já o secretário de Governo, Adilson Siqueira, credita à falta de verbas o problema do fardamento. “É bom frisar que o município está com perda de recursos federais em todos os programas – como, por exemplo, o 'Alimentação Escolar' e o 'Transporte Escolar'. Então nós estamos tirando dinheiro de algum lugar, ou de fardamento ou de reforma de escola, para cobrir programas do governo federal.” Ele afirma que para a aquisição de fardamento para este ano ainda está em aberto um processo de licitação.
Sobre a queima do lixo inorgânico, Siqueira diz que a prática é uma recomendação do próprio governo municipal. “Ainda não temos esse sistema de coleta na zona rural. Isso é um projeto que está numa perspectiva [de implantar] até 2020. De imediato, o ideal agora era queimar. Seria menos poluição”, diz o secretário.
Quanto às cisternas, o secretário não dá um prazo para a finalização. Em relação à falta de segurança por conta da obra na escola do Alto do São Francisco, Adilson Siqueira informa que irá comunicar a construtora responsável para que medidas de proteção sejam instaladas no entorno.
FNDE
Em nota, a assessoria de imprensa do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) diz que a oferta de alimentação e a assistência financeira nos programas citados pelo secretário de governo são de caráter suplementar.
"Dito isto, cabe esclarecer que não há registro de atrasos nos repasses financeiros do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e do Programa Nacional de Apoio ao Transporte do Escolar (Pnate). Com relação ao município de Ibirajuba, já foram transferidos, neste ano, R$ 81.078 referentes ao Pnae e R$ 21.417 referentes ao Pnate", diz a nota.
 

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